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martes, 3 de junio de 2008

Veja Entrevista: Yon Goicoechea

Um jovem herói

O líder estudantil diz que a Venezuela precisa de menos
ideologia e mais pragmatismo para voltar a ser uma democracia


Camila Pereira

Germán Roig

"O debate ideológico tira o foco
da questão central: neste momento, quem se opõe a Chávez está lutando pela liberdade"

Apesar da pouca idade – apenas 23 anos –, o estudante de direito Yon Goicoechea é hoje um dos principais líderes de oposição ao governo do presidente Hugo Chávez na Venezuela. Sua atuação à frente do movimento estudantil foi considerada pelos observadores decisiva para a derrota de Chávez no referendo que lhe teria conferido mais poder e limitado ainda mais a liberdade dos venezuelanos. Por sua luta em prol da democracia, Goicoechea recebeu, no mês passado, um prêmio de 500 000 dólares do instituto americano Cato, sediado em Washington. Ameaçado de seqüestro e até de morte pelos chavistas, ele passou a tomar algumas medidas de segurança em seu dia-a-dia. Não sai mais à rua sozinho e troca o número do celular a cada quinze dias, para evitar ser grampeado. Ainda assim, vive com medo de ser vítima de um ato violento por parte do governo. Na entrevista que concedeu a VEJA, Goicoechea se revela uma voz destoante no movimento estudantil: critica o fato de tais movimentos receberem dinheiro do governo, tal qual no Brasil, e é contra invasões de reitoria como forma de protesto.

Veja – Você acaba de ganhar um prêmio nos Estados Unidos por lutar pela liberdade em seu país. Qual foi a reação do governo?
Goicoechea –O Ministério da Comunicação usou a televisão estatal para difundir a tese de que, ao conceder o prêmio a um opositor do regime, os Estados Unidos estariam fazendo uma nova tentativa de desestabilizar os governos na América Latina. Uma baboseira ideológica que choca, antes de tudo, pelo anacronismo.

Veja – Qual é sua opinião sobre esse antiamericanismo?
Goicoechea – É inaceitável o fato de a filosofia antiamericanista ainda ter espaço num momento em que os países estão cada vez mais próximos uns dos outros. Enquanto eles se abrem e claramente se beneficiam disso, a Venezuela está isolada do mundo. Também não dá para entender de onde vem tanto ódio contra um modelo que, afinal, deu certo. Fiz palestras em Harvard e Georgetown, ambas nos Estados Unidos, e vi de perto como funcionam algumas das melhores universidades do mundo. Devemos é aprender com os americanos, em vez de repudiá-los. Repare que há muito pouco de objetivo nas críticas feitas por Chávez aos Estados Unidos – são pura retórica. Adoraria ver os venezuelanos vivendo tão bem quanto os americanos.

Veja – Você costuma ser criticado por outros estudantes ao defender tais idéias?
Goicoechea –Sim, o tempo todo. Essas críticas vêm de uma minoria de estudantes que ainda apóia Chávez. Estão motivados, basicamente, por um discurso ideológico de esquerda. Segundo esses estudantes, eu seria um típico representante da direita. Com uma discussão tão ultrapassada, eles deixam de prestar atenção na questão central: quem se opõe ao governo Chávez está lutando pela possibilidade de qualquer venezuelano defender o que bem entenda e acreditar nisso sem que seja punido, como é comum hoje. Para superar um cenário tão atrasado, é preciso pragmatismo – e a insistência no debate ideológico só atrapalha.

Veja – Líderes estudantis brasileiros, sobretudo aqueles ligadas à União Nacional dos Estudantes (UNE), já declararam apoio incondicional ao presidente Hugo Chávez. Eles também estão sendo mais ideológicos do que pragmáticos?
Goicoechea –Sem dúvida. Acho indefensável que haja no movimento estudantil brasileiro líderes que saiam em defesa das práticas autoritárias do governo venezuelano. Prefiro acreditar que eles fizeram isso por um profundo desconhecimento das reformas propostas por Chávez. Se estivessem mais bem informados, esses estudantes brasileiros não teriam tomado uma posição que vai de encontro à diversidade de opiniões e às liberdades individuais. Como ser a favor de reformas que tirariam das pessoas direitos tão básicos, como o de escolher seus governantes e até o de optar pela profissão que desejam seguir? Não faz nenhum sentido que estudantes tenham simpatia por tais idéias.

Veja – Você chegou a receber alguma manifestação de apoio de movimentos estudantis brasileiros?
Goicoechea –Nenhuma. Mas teria sido de grande ajuda. A pressão internacional contra Chávez pode exercer um papel fundamental para que a Venezuela se torne, de novo, uma democracia. Infelizmente, alguns líderes estudantis na América Latina, assim como o meio acadêmico de modo geral, estão paralisados pelo discurso ideológico. Perdem tempo discutindo Karl Marx e idéias superadas ao longo dos séculos, quando poderiam estar lutando por questões mais práticas e relevantes. Esse debate velho não faz mais sentido em nenhum lugar do mundo – muito menos na Venezuela, onde falta um artigo de primeira necessidade: a liberdade de expressão.

Veja – No Brasil, os estudantes costumam invadir reitorias como forma de protesto. Você concorda?
Goicoechea –Não. Numa democracia como a brasileira, há instituições suficientemente sólidas para resolver os impasses, e é preciso recorrer a elas. A ordem e o respeito à lei não são princípios apenas desejáveis, mas absolutamente necessários nas sociedades modernas. Até mesmo num governo autoritário como o da Venezuela, em que as instituições são menos transparentes e inoperantes, acho que manifestações tão extremas a ponto de ser ilegais devem funcionar apenas como último recurso.

Veja – Que tipo de represália você sofreu por parte do governo quando começou a liderar movimentos antichavistas?
Goicoechea –Foram tantas que perdi a conta. Recebi telefonemas em casa com ameaças de seqüestro e até de morte. Isso se estendeu à minha família. Também já apanhei no meio da rua. No ano passado, durante uma assembléia para discutir as reformas propostas por Chávez, alguns estudantes que apoiavam o governo me agrediram. O que era para ser um debate como qualquer outro se tornou uma demonstração de intolerância. Acabei no hospital com um olho roxo e o nariz machucado. Em outra ocasião, colocaram um explosivo no palco em que eu discursava. Eles fazem isso para me assustar, e às vezes conseguem. Não dá para não ter medo de morrer numa situação como a atual. Meus familiares vivem apavorados com a idéia de que algo pior possa acontecer comigo. Por mais de uma vez, minha mãe via televisão quando foi surpreendida com cenas em que eu era alvo de agressões em plena luz do dia.

Veja – Em geral, quem são os agressores?
Goicoechea –Pessoas ligadas a alguns dos grupos radicais de apoio a Chávez. Eles praticam a violação dos direitos humanos na Venezuela sem nenhuma espécie de pudor. Minha situação piora com a propaganda negativa que o governo faz contra mim em jornais, rádios e na televisão. Já me chamaram de tudo: de fascista, inimigo da pátria, colaborador da ultradireita e até de títere do império americano. Em meu país, sou tratado pelo governo como um péssimo exemplo.

Veja – Como você se protege?
Goicoechea –Jamais fico sozinho em lugares públicos. Troco o número do meu celular a cada quinze dias e não tenho mais telefone fixo, para evitar ser grampeado. Em momentos mais tensos, como nas semanas que antecederam a votação do referendo de Chávez, deixei de dormir em casa. A cada noite, pedia asilo a um amigo diferente. Viver assim não é exatamente bom, mas sei que não exagero ao tomar medidas em prol da minha segurança.

Veja – Você pensa em deixar a Venezuela e morar em outro país?
Goicoechea –Não. Depois da II Guerra, meu avô fugiu do caos em que estava a Espanha para tentar uma vida melhor na Venezuela. Com o passar dos anos, a Espanha se tornou próspera e meu avô sofreu muito com o fato de não ter estado lá para ver essas mudanças e participar delas. Guardadas as devidas diferenças históricas, a Venezuela é hoje, também, uma espécie de terra arrasada. Posso soar idealista, mas não quero jamais sentir a mesma frustração de meu avô, ainda que toda essa repressão me atinja tão diretamente.

Veja – O governo interfere nas universidades da Venezuela?
Goicoechea –Ele tenta o tempo todo. Algumas universidades já são diretamente controladas pelo governo. Nelas, todos os reitores e diretores são pró-Chávez e chegaram lá por indicação política. É o caso da Universidade Bolivariana, uma invenção do próprio Chávez, e da Unefa, comandada pelas Forças Armadas. Essas instituições sofrem pressão do governo. Alunos e professores têm medo de emitir opiniões que possam ser mal interpretadas pelas autoridades e resultem em expulsões, demissões e outras represálias. Fazer oposição a Chávez numa dessas universidades é algo impensável. Felizmente, elas ainda são a minoria na Venezuela. Mas o número pode aumentar.

Veja – Por que você diz isso?
Goicoechea – O governo lançou recentemente uma proposta inacreditável. Chávez quer que o processo de seleção nas universidades passe a ser comandado pelo Ministério da Educação. Na prática, isso significa que só os estudantes alinhados com o governo teriam acesso à educação superior. Não acredito que os chavistas consigam emplacar esse projeto. De todo modo, é assustador. O governo também tentou implantar uma cartilha própria nas escolas, mas fracassou.

Veja – Como era exatamente essa cartilha?
Goicoechea – Profundamente ideologizada e xenófoba. O objetivo declarado da cartilha era formar "o novo homem socialista", nas palavras do próprio Chávez. Ela incentivava as crianças a entoar canções a Simon Bolívar, o herói da independência nacional, e a odiar os colonizadores europeus. Também apagava alguns capítulos da história desfavoráveis a Hugo Chávez e alimentava a admiração aos movimentos que resultaram em ditaduras comunistas, como os da Coréia do Norte e de Cuba. Um absurdo atrás do outro. Mas essa Chávez não conseguiu levar adiante.

Veja – Você conhece muita gente que vive com medo do governo na Venezuela?
Goicoechea –Isso é muito comum. No serviço público, por exemplo, é preciso dar a toda hora manifestações explícitas de apoio ao governo para manter o emprego. Isso acontece de diversas maneiras. Conheço pessoas que já foram várias vezes forçadas a participar de atos públicos em favor de Chávez. Nessas ocasiões, elas sabem que, caso não compareçam, acabarão demitidas. Vão, portanto, porque precisam do trabalho. Essa é uma forma de coerção brutal. Quem recebe benefícios sociais do governo sofre algo parecido. O pré-requisito básico para ter acesso a qualquer um deles é o mesmo: apoiar incondicionalmente Hugo Chávez. Hoje, quem faz oposição ao governo na Venezuela paga um preço alto por isso.

Veja – De onde vem o dinheiro para manter o movimento estudantil que você comanda?
Goicoechea –Da contribuição mensal dos estudantes e de empresas do setor privado. Elas dão dinheiro por meio de uma fundação mantida pelo próprio movimento estudantil. Do governo, evidentemente, não vem nem um centavo. É claro que isso tem uma relação direta com o fato de o movimento ser de oposição a Chávez. Mas, mesmo que o governo quisesse nos ajudar financeiramente, eu seria absolutamente contra.

Veja – Por quê?
Goicoechea –Não acho apropriado para um movimento estudantil manter uma relação tão estreita com o governo. Por definição, uma organização dessa natureza precisa ser independente. Do contrário, dificilmente fará um trabalho sério. Às vezes, os estudantes precisam se colocar contra o governo, como acontece hoje na Venezuela. Com uma relação financeira estabelecida entre as duas partes, a isenção fica naturalmente comprometida.

Veja – No Brasil, uma parte do orçamento da UNE vem do governo...
Goicoechea –Para mim, está claro que esse é um modelo fadado ao fracasso. Se fosse estudante no Brasil, faria uma reflexão sobre isso.

Veja – Você está pessimista em relação à situação na Venezuela?
Goicoechea –É preciso fazer um esforço diário para renovar o otimismo. Enxergo, no entanto, alguns sinais positivos no horizonte. Estudantes que antes não se manifestavam têm me procurado dizendo que, diante de tanto obscurantismo, resolveram protestar ativamente. Isso fortalece o movimento. Outro dado bom diz respeito ao surgimento de lideranças no governo dispostas a respeitar as leis e a dialogar com a oposição. É, pelo menos, um começo.

Veja – O que você vai fazer com o prêmio de 500 000 dólares que acaba de receber?
Goicoechea –Investir numa escola em Caracas para capacitar líderes. A idéia é ajudar a formar uma juventude com a mentalidade mais aberta e, antes de tudo, voltada para temas minimamente relevantes. É o contrário do que se passa na Venezuela e em tantos outros países da América Latina – todos com uma forte inclinação para assuntos já sepultados pela própria história. Fico angustiado ao ver como questões tão ultrapassadas e ideológicas impedem as pessoas, ainda hoje, de aspirar a uma sociedade mais moderna.

sábado, 12 de abril de 2008

PDVSA da leche

También en Veja de esta semana:

PDVSA dá petróleo...
e leite

A Parmalat acaba de fechar um contrato de venda de 15 milhões de quilos de leite em pó para a Venezuela. Até aí, beleza. O singular é quem está comprando o leite: a PDVSA, a estatal venezuelana de petróleo. Há algo de muito torto num país em que a compra de alimentos é feita pela estatal de petróleo.

El bufón de América

Entrevista: Marco Antonio Villa
O bufão da américa

Historiador diz que Hugo Chávez, presidente da
Venezuela, é perigoso por ser ambicioso e imprevisível


Duda Teixeira

Roberto Setton

"Se Lula tivesse sido presidente
na República Velha, o Acre seria
dos bolivianos e Santa Catarina,
dos argentinos"

O historiador Marco Antonio Villa já escreveu 21 livros, com temas que variam da Idade Média à Revolução Mexicana. Ao investir contra mitos da história nacional em suas obras e artigos, esse professor da Universidade Federal de São Carlos colecionou polêmicas e fez dezenas de inimigos. Sete anos atrás, tornou-se persona non grata no estado de Minas Gerais ao sustentar que Tiradentes foi um herói construído pelos republicanos. Mais tarde, causou comoção ao escrever que o presidente João Goulart, deposto pelos militares em 1964, preparava o próprio golpe de estado para obter a reeleição. "Os historiadores costumam ter receio de polêmicas, mas é com elas que se transforma a visão de mundo de uma sociedade", diz Villa, que tem 52 anos. Estudioso da diplomacia brasileira, ele vê com preocupação o sumiço da linha de diplomacia cunhada pelo barão do Rio Branco. "O barão profissionalizou o Itamaraty, que passou a atuar em busca dos interesses do país, e não de um governo ou partido." Em sua casa na Zona Norte de São Paulo, o historiador deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Como o senhor avalia a atual diplomacia brasileira?
Villa – Nossa diplomacia se esquiva de defender os interesses nacionais na América Latina. Teima sempre em chegar a um acordo e, como não consegue, acaba cedendo aos vizinhos. Se Lula tivesse sido presidente na República Velha, o Acre seria hoje dos bolivianos e Santa Catarina, dos argentinos. Por aqui se pensa que o Brasil não pode ter interesses nacionais ou econômicos na América do Sul, uma vez que estamos em busca de uma integração regional. É um equívoco. Os interesses do Brasil não são os mesmos da Argentina. Os objetivos do Paraguai não são os do Brasil. A linguagem amena, educada, usada pelos nossos diplomatas apenas tem fortalecido os caudilhos da região, como o venezuelano Hugo Chávez e o boliviano Evo Morales, que se acham com autoridade para falar ainda mais grosso e aumentar as exigências.

Veja – A diplomacia brasileira não era assim no passado?
Villa – Não. No fim do século XIX, a Argentina reivindicou o oeste do Paraná e de Santa Catarina. Não fazia o menor sentido. O presidente Prudente de Moraes, com a ajuda do barão do Rio Branco, resolveu a questão e evitou a doação da área. Não perdemos um hectare de terra. O barão sabia quais eram os interesses nacionais e os defendia. Além disso, profissionalizou o Itamaraty, que passou a coordenar uma política em nome do país, e não de um governo ou partido. Hoje, precisamos urgentemente que o barão do Rio Branco se incorpore no ministro das Relações Exteriores.

Veja – O Brasil cede sempre?
Villa – Só não o fazemos quando é impossível. Em negociações recentes com a argentina Cristina Kirchner e com Evo Morales, a Petrobras recusou-se a fornecer gás para a Argentina, que vive sob ameaça de um apagão. Se cedesse, o Brasil teria um grave desabastecimento. Nos outros casos, somos sempre fregueses. O Brasil já sofreu no passado uma invasão de produtos argentinos e ninguém reclamou. Quando a situação se inverteu e a balança comercial tornou-se superavitária para o Brasil, os argentinos chiaram e conseguiram o que queriam. Com a Bolívia, aceitamos uma indenização simbólica pelas refinarias nacionalizadas, a um valor muito aquém do que foi investido pela Petrobras. Com Hugo Chávez, falamos sempre "não" na primeira hora, depois dizemos "sim". Éramos contra o Banco do Sul. Hoje somos a favor. Fazemos o oposto do que recomendava Vladimir Lenin, para quem era preciso dar um passo atrás e depois dois para a frente. A diplomacia nacional dá um para a frente e dois para trás.

Veja – Deportar turistas espanhóis é uma resposta inteligente à repatriação de brasileiros que tentavam ir para a Espanha?
Villa – Foi um exagero. A política externa não é para ficar a cargo de um funcionário da Polícia Federal. As cenas dos espanhóis sendo deportados no aeroporto de Fortaleza são absurdas. Uma coisa é um turista que vai para Jericoacoara, outra é um brasileiro que, supostamente ou não, deseja trabalhar na Espanha. Quando faz diplomacia com a Europa, os Estados Unidos ou a Ásia, o Brasil tem sido muito agressivo. É como se o esforço para se afirmar como país, uma vez que não se realiza na América Latina, fosse todo desviado para os fóruns em outros continentes. Ser duro com um turista espanhol é fácil. Quero ver ser duro com Hugo Chávez.

Veja – Chávez é o grande líder da América Latina?
Villa – Quando se olha o que ocorre com os mais de vinte países da região, não há dúvida disso. Com a alta do preço do petróleo, Chávez construiu uma sólida rede de alianças. Foi uma sucessão de vitórias. Tem o apoio de Cuba, Nicarágua, Equador, Bolívia, Argentina. Quem está do lado do Brasil? Ninguém. Chávez é um ator que faz um monólogo. Eventualmente alguém da platéia sobe no palco e participa. O show é dele. Ele determina o que vai ser discutido e como. Os outros só correm atrás. Os países que estão se aproximando do Brasil, como Paraguai e Peru, fazem isso apenas porque não tiveram ainda um estabelecimento de relações com a Venezuela. A história talvez comece a mudar agora. Não por obra de Lula, evidentemente, e sim de Álvaro Uribe, o presidente colombiano. Graças a ele, Chávez teve sua primeira derrota em política externa. A reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), que colocou panos quentes na discussão que se seguiu à morte do terrorista Raúl Reyes, pode sinalizar um futuro diferente.

Veja – Por que o senhor considera que Chávez perdeu?
Villa – Chávez é um caudilho e, como tal, precisa de um palanque para discursar. Quando reagiu com firmeza à morte de Raúl Reyes no Equador, ganhou um palco considerável. Só que durou pouquíssimo tempo. A solução rápida e eficaz do problema pela OEA, que estava sumida do mapa, tirou essa oportunidade dele. Chávez resignou-se porque a maioria dos países apoiou a resolução final, que condenava a invasão territorial no Equador e ao mesmo tempo acusava a presença das Farc naquele país. Uribe, ao pautar as negociações que esfriaram o conflito, mostrou que é possível dar um basta a Chávez. Sua atitude terá um impacto pedagógico até mesmo dentro da Venezuela, onde o povo tem aceitado as precárias condições internas do país ao ver que, externamente, seu presidente só obtém vitórias. Chávez teve sua primeira grande derrota no referendo constitucional. Agora, teve a segunda derrota, dessa vez em política externa.

Veja – Por que o discurso é tão importante para um caudilho?
Villa – Um caudilho não vive sem a oratória. O programa dominical Aló Presidente é o que vitamina Chávez. Fidel Castro adora discursar por horas. O mexicano Antonio López de Santa Anna foi ditador várias vezes, afundou seu país e, ferido e pensando que ia morrer, ditou suas últimas palavras. Foram quinze páginas. No fim, sobreviveu com uma perna amputada, que sepultou com honras militares. A oratória é uma tradição latino-americana, que ocorre paralelamente à dissociação entre discurso e prática. Para esses homens e para as suas platéias, é como se as palavras, sozinhas, tivessem um poder de mudar a realidade. Pura bobagem. Não existe tal mágica. Lula também aposta nesse artifício. Acha que ao divulgar o programa do PAC pode transformar o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, em um bairro residencial em seis meses. Para os sucessores, a herança desse tipo de comportamento é terrível.

Veja – Por que os latino-americanos possuem o vício da oratória?
Villa – Em parte, há na América Latina uma forte tradição do bacharelismo. Muitos dos presidentes passaram por faculdades de direito. No Brasil, Getúlio Vargas e Jânio Quadros são exemplos. Epitácio Pessoa era chamado de "A Patativa do Norte", em referência a uma ave cantora. Fidel Castro foi advogado. O argentino Juan Domingo Perón não era, mas a maioria dos seus auxiliares, sim. Para um advogado, o que importa não é a legitimidade da causa, mas o nível de retórica do advogado para defender seu acusado. Somos muito marcados por isso.

Veja – Qual é o maior perigo de Chávez para o resto da América Latina?
Villa – Ele está armando seu Exército e sua população. Compra fuzis, caças e faz acordos com o Irã. Ninguém parece levar isso a sério. A diplomacia brasileira sabe disso e vai contornando a situação. Uma hora Chávez vai invadir a Guiana. Ele reivindica quase dois terços do território desse país. Para Chávez, a Guiana é uma aventura fácil. E quem vai defendê-la? O que a Guiana conta na América do Sul? Nada.

Veja – Chávez reagiu ao ataque colombiano às Farc no Equador com um discurso em defesa da soberania nacional. Ele invadiria a Guiana?
Villa – Chávez é um bufão. Ele construiu um personagem. É um militar de boina vermelha que se emociona, chora e canta em público. Em um momento é simpático. No minuto seguinte, aparece totalmente irado. O bufão é isso. Nunca se podem prever suas atitudes. Pode abraçar um crítico ou mandá-lo para a prisão. Suas atitudes não se regem pelo mundo racional. O bufão trabalha em outro universo.

Veja – Por que Chávez defende as Farc?
Villa – Seu objetivo é enfraquecer Álvaro Uribe. Chávez vê de forma simplista a conjuntura latino-americana. O mundo para ele se divide de uma maneira muito primária: os que estão com ele e os que estão com os Estados Unidos. Considera que o presidente da Colômbia é um agente imperialista na América do Sul. O combate às Farc tem sido uma das mais fortes bandeiras de Uribe.

Veja – É legítimo usar grupos armados ou políticos de outros países para causar instabilidade?
Villa – Há uma incompatibilidade em defender a soberania e apoiar materialmente um movimento terrorista em um país vizinho. No Brasil, tivemos uma história parecida. No governo de João Goulart, as Ligas Camponesas tinham meia dúzia de campos guerrilheiros e contavam com o apoio financeiro cubano. Quando se descobriram os campos, foi um escândalo. Vivíamos um regime democrático e o governo brasileiro manifestava-se contrário à expulsão de Cuba da OEA, enquanto Cuba violava a soberania brasileira apoiando um movimento guerrilheiro que rompia com a legalidade constitucional. A defesa da soberania só valia para os cubanos. Eu imaginava que essa prática de violação da soberania fosse página virada da história latino-americana. Ledo engano.

Veja – Chávez foi o grande pacificador do conflito entre Colômbia e Equador, como disse Lula?
Villa – Não há nenhum fato que comprove isso. Os documentos que estavam no computador do guerrilheiro Raúl Reyes ainda mostram que Chávez apoiava financeiramente as Farc e também recebia ajuda dos narcoterroristas. Isso não tem nada a ver com paz. Lula não tinha por que falar isso. Diz essas asneiras porque está em um momento especial. A economia vai muito bem, o que levou Lula a entender que ganhou um salvo-conduto para reescrever a história do Brasil. Discursou homenageando Severino Cavalcanti, que renunciou quando se comprovou que ele recebia um mensalinho de 10 000 reais para deixar um restaurante funcionando na Câmara dos Deputados. Dois dias depois, defendeu sua amizade com Renan Calheiros, que teve suas contas pessoais pagas por um lobista. Quando falou de Chávez, Lula disse que ele era um ex-guerrilheiro. Lula sabe que essas coisas não são verdade. Não é ingênuo e é bem assessorado. Mas fala como se fosse um iluminado. É um líder messiânico em plena campanha eleitoral. Os professores de história devem estar arrepiados.

Veja – Qual é a importância do Foro de São Paulo na condução da política externa brasileira?
Villa – O Foro de São Paulo é um clube da terceira idade. Basta ver as fotos. São senhores em idade provecta, como se dizia antigamente. São provectos também no sentido ideológico. Suas idéias pertencem ao passado. Não creio que tenham uma estratégia revolucionária para a América Latina tal como foi a Internacional Comunista. Durante o período da União Soviética, os partidos comunistas espalhados pelo mundo eram braços da política externa soviética. O Foro de São Paulo não tem esse poder. Sua maior influência se dá pela pessoa de Marco Aurélio Garcia, assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, que tem grande participação no Foro.

Veja – Qual é a relevância de Marco Aurélio Garcia nas relações externas?
Villa – Desde o início da República, não há registro de um assessor com tanto poder como ele. Garcia aparece nas fotos quase sempre atrás de Lula. Dá pronunciamentos em pé de igualdade com o ministro das Relações Exteriores ou o secretário-geral do Itamaraty. Marco Aurélio Garcia é considerado um grande acadêmico, um gênio, uma referência para qualquer estudo sobre relações internacionais na América Latina. Curioso é que não se conhece nenhuma nota de rodapé que ele tenha escrito sobre o tema. Fui procurar seu currículo na plataforma Lattes, do CNPq. Não há nada sobre ele. Marco Aurélio Garcia é o Pacheco das relações internacionais.

Veja – Quem é o Pacheco?
Villa – É um personagem de Eça de Queiroz que aparece no livro A Correspondência de Fradique Mendes. Pacheco era um sujeito tido como brilhante. No primeiro ano de Coimbra, as pessoas achavam estranho um estudante andar pela universidade carregando grossos volumes. No segundo ano, ele começou a ficar mais calvo e se sentava na primeira carteira. Começaram a achar que ele era muito inteligente, porque fazia uma cara muito pensativa durante as aulas e, vez por outra, folheava os tais volumes. No quarto ano, Portugal todo já sabia que havia um grande talento em Coimbra. Era o Pacheco. Virou deputado, ministro e primeiro-ministro. Quando morreu, a pátria toda chorou. Os jornalistas foram estudar sua biografia e viram que ele não tinha feito nada. Era uma fraude.

Veja – Que conseqüências a política externa do Brasil pode ter no futuro?
Villa – Pela primeira vez na história do país existe a possibilidade de a política externa tornar-se tema de eleição. Seria algo realmente inédito que, para acontecer, só depende de como Chávez vai agir nos próximos anos. As concessões dadas à Bolívia, os diversos acordos com Chávez e a recusa em classificar as Farc como um grupo terrorista estão provocando muita crítica dentro do Brasil e podem juntar-se em um único e potente tema central na próxima campanha presidencial.

martes, 11 de marzo de 2008

Veja: Bajo el dominio de las Farc

La mayor revista semanal brasileña, Veja, trae un reportaje sobre la situación de la población en los estados Zulia, Táchira y Apure, completamente dominados por los narco-terroristas de las farc y sus compinches de la Guardia Nacional y el ejército venezolanos:

Sob o domínio das Farc

Ao dar guarida aos terroristas, Chávez expôs
os venezuelanos a seqüestros e assassinatos


Duda Teixeira, de San Cristóbal, Venezuela

Anderson Schneider/WPN
CRIME DE EXPORTAÇÃO
Militar revista porta-malas de carro que entra na Venezuela por San Antonio del Táchira: comércio bloqueado e guerrilha com livre acesso

Perseguidos pelo Exército colombiano, os terroristas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) estão sendo recebidos de braços abertos na Venezuela. No país vizinho, ganham o status de força beligerante, e a morte de um de seus chefes mereceu até um minuto de silêncio, homenagem prestada pelo presidente da nação diante das câmeras de televisão. Nos últimos nove anos, período que coincide com o mandato de Hugo Chávez no Palácio Miraflores, bandos armados cruzaram a fronteira levando na bagagem seu programa político: extorsões, seqüestros e assassinatos. Três estados venezuelanos que fazem fronteira com a Colômbia estão infestados de narcoterroristas. O fluxo de criminosos colocou os dois países vizinhos em cenários opostos. Enquanto os colombianos aguardam ansiosamente o momento de sair de um pesadelo, os venezuelanos vivem os primeiros momentos de uma guerra não declarada, sem prazo para terminar.

As principais vítimas das levas de terroristas são pequenos comerciantes, sitiantes, estudantes e taxistas venezuelanos. A população da cidade de Rubio, no estado de Táchira, está totalmente sitiada. Com cerca de 120 000 habitantes, recebeu seis anos atrás a visita de dois hóspedes indesejados: um é o Exército de Libertação Nacional (ELN), organização colombiana similar às Farc, só que com menor número de homens armados. Outro são os pistoleiros de uma milícia de paramilitares criada exatamente para proteger os cidadãos dos guerrilheiros comunistas na Colômbia e que acabou por adotar as táticas criminosas de seus inimigos. Ao chegarem à pequena cidade, os dois bandos optaram por não entrar em choque. Ambos instalaram-se em morros à distância de um tiro um do outro, e com vista para o município. Fraternalmente, decidiram que o ELN iria achacar os agricultores e outros moradores da zona rural e os paramilitares limitariam sua rapina à população urbana. Seqüestros imediatamente entraram na rotina dos venezuelanos. "Os bandos mudaram a cidade da noite para o dia. Amanhecemos com corpos nas ruas e o assassino não tem mais rosto", disse a VEJA o veterinário Porfírio Dávila, de 38 anos. Em 2003, seu pai, um pequeno produtor rural, foi seqüestrado ao estacionar o jipe em frente a seu sítio, vizinho ao morro dominado pelo ELN. Dávila passou a receber ligações de pessoas com sotaque colombiano pedindo um resgate equivalente a 500 000 reais pela libertação de seu pai. Respondeu que sua família não tinha quantia tão alta. As chamadas cessaram depois de um mês e meio. "Eles libertam os ricos que pagam o resgate e não hesitam em matar os pobres que não podem pagar o que pedem", diz Dávila, que mantém as esperanças de reencontrar seu pai.


Anderson Schneider/WPN
SEM AMPARO
O oficial de Justiça Juan Pabón teve a mãe e o irmão seqüestrados pela própria polícia venezuelana: "Chávez recebe os familiares dos seqüestrados colombianos no hotel Gran Meliá, em Caracas. Nós não conseguimos sequer conversar com ele pelo telefone"

Outra forma de os pistoleiros ganharem dinheiro é a extorsão. No estado de Táchira, todos estão familiarizados com a "vacina", que consiste no pagamento de uma taxa mensal para não ser incomodado pelos criminosos. Taxistas dão cerca de 10 reais por mês, o equivalente a uma corrida. Com comerciantes, as negociações sobre o preço a ser pago começam no equivalente a 1 300 reais. "Um homem armado e de óculos escuros entrou na loja, chamou-me pelo nome, disse onde estudavam meus três filhos e me convidou para um encontro", contou a VEJA o dono de uma loja de roupas, que pediu para ser identificado apenas como Gamboa. Na reunião que se seguiu em um sítio, ele recebeu uma carta assinada pelo chefe paramilitar colombiano Carlos Castanho em que ele agradecia formalmente a colaboração para a causa do grupo. O valor foi fechado em 500 reais mensais. Todo mês, há três anos, Gamboa ganha um envelope contendo um endereço e um horário. Vai até o local e entrega o dinheiro para um desconhecido.

O lucrativo contrabando de gasolina na fronteira também se tornou fonte de renda para os paramilitares. Em San Antonio del Táchira, cidade na fronteira entre os dois países, 1 litro de gasolina custa 100 bolívares. De tanque cheio, motoristas atravessam a fronteira e estacionam seus carros a apenas 500 metros da alfândega colombiana. Ali, a gasolina é transferida para galões vazios enfileirados na calçada ao preço de 1 500 bolívares por litro. Cada veículo faz entre quatro e cinco viagens por dia. Como tal comércio é proibido, a Guarda Nacional venezuelana cobra uma propina fixa para deixar passar. O alto faturamento dos subornos atraiu os paramilitares colombianos, que montaram com a Guarda Nacional um esquema profissional com senha e pagamento antecipado.


Anderson Schneider/WPN
VIZINHO DO ELN
O veterinário Porfírio Dávila teve o pai seqüestrado em 2003 no sítio que fica ao lado de uma montanha dominada pelos terroristas colombianos do Exército de Libertação Nacional (ELN). Há seis anos, a cidade de Rubio foi dividida entre bandidos comunistas e paramilitares

Ao migrarem para a Venezuela, os terroristas comunistas ganharam contornos um pouco diferentes. Além das organizações que atuavam na Colômbia, surgiram dissidências e novos grupos. "Os colombianos recrutaram muitos delinqüentes venezuelanos, aos quais ensinaram métodos que não eram conhecidos aqui, como o seqüestro", disse a VEJA a geógrafa Mayra Medina, da Universidade Pedagógica Experimental Libertador, em Rubio. A organização criminosa mais numerosa atualmente na Venezuela não foi importada. Trata-se da Frente Bolivariana de Liberação (FBL). Com 1 500 militantes armados, exalta Simon Bolívar e tem por finalidade dar respaldo a Hugo Chávez. Com esse objetivo, recruta menores e indígenas na Venezuela, no Equador e – como dizem seus membros com orgulho – também no Brasil. Sua marca registrada é um grafite vermelho nas paredes das casas com a frase "FBL. Aliste-se" e a imagem de um fuzil.

"As Farc e o ELN não são grupos terroristas. São verdadeiros exércitos", disse Hugo Chávez na Assembléia Nacional, em Caracas. "São forças insurgentes que têm um projeto político, bolivariano, que aqui é respeitado." A chancela presidencial aos terroristas deixa ao desamparo as vítimas venezuelanas do conflito no país vizinho. Após ser achacado pela primeira vez, o comerciante Gamboa procurou a polícia local. Ouviu como resposta que, se ele quisesse, os policiais poderiam atacar de surpresa o acampamento dos paramilitares. Contudo, salientaram que, dada a elevada presença de terroristas em toda a região, isso não lhe garantiria nenhuma segurança. "Com o presidente que temos, não há outra coisa a fazer senão se resignar", diz Gamboa.

No estado de Apure, ao sul de Táchira, o assunto Farc é praticamente proibido. "Ninguém pode dizer nem fazer nada", disse a VEJA Acacio Belandria, padre jesuíta da Igreja de San Camilo de Lelis, na cidade de El Nula. "Muitos agricultores preferem abandonar suas terras a tentar mudar a situação." Belandria já teve dois primos seqüestrados pelas Farc e é um dos poucos a criticar abertamente os guerrilheiros. Em El Nula, o controle social exercido pelos terroristas é tão intenso que seus membros chegam a entrar nas escolas para repreender professores cujas lições não estejam de acordo com a doutrina marxista. O padre Belandria escreveu um relatório sobre o banditismo na sua região e o enviou à Presidência da República pedindo providências. Não recebeu resposta alguma.

O oficial de Justiça Juan Pabón também reclama da falta de atenção do governo de Hugo Chávez. "Quando pedimos justiça, somos tachados pelas autoridades do governo chavista de oligarcas ou traidores da pátria." Pabón teve a mãe e o irmão seqüestrados pelo Grupo de Antiextorsão e Seqüestro da Guarda Nacional venezuelana. Em 2003, durante uma operação para localizar o cativeiro de três pecuaristas seqüestrados, agentes dessa força policial invadiram o sítio da mãe de Juan Pabón. Ela foi levada junto com um dos filhos, um amigo e todo o dinheiro que havia na casa. Quinze dias depois, o oficial de Justiça começou a receber ligações pedindo o equivalente a 800 000 reais. Atualmente, os nomes de seus parentes e de seu amigo aparecem todos os dias numa lista com 24 nomes publicada no jornal La Nación, da cidade de San Cristóbal. Pabón e o veterinário Dávila participam da Fundação por uma Venezuela Livre de Seqüestros, uma organização não governamental criada para tentar forçar as autoridades venezuelanas a ajudar as vítimas, e não, como ocorre, apenas os criminosos. "Chávez recebe os familiares dos seqüestrados colombianos no hotel Gran Meliá, em Caracas. Nós não conseguimos sequer conversar com ele por telefone", diz Pabón.


sábado, 23 de febrero de 2008

Veja: El futuro sin fidel

Um país de muito passado agora tem algum futuro

O ditador entrega o comando direto do país ao irmão, abre
caminho para mudanças, mas fica ainda como um fantasma
assombrando o povo e preservando sua tenebrosa herança


Diogo Schelp

Reuters
Fidel Castro

VEJA TAMBÉM
Nesta reportagem
• Artigo - Reinaldo Azevedo: Fidel e o golpe da revolução operada por outros meios
Exclusivo on-line
• Perguntas e respostas: Cuba sem Fidel

Em 1953, levado a julgamento pelo crime de ter enviado seus primeiros seguidores para um ataque suicida a um quartel, o jovem advogado Fidel Castro Ruz assumiu a própria defesa e o fez de forma magnífica. Antecipando a retórica magnética, grandiosa, arrogante mas farsesca que o caracterizaria pelo resto da vida política, disse aos juízes: "A história me absolverá". Passou-se mais de meio século e, aos 81 anos, conceda-se, Fidel está diante do tribunal da história. Visto o sofrimento que infligiu ao povo durante 49 anos como senhor absoluto de Cuba, a absolvição está fora de cogitação. Cabe recurso? Não dá mais tempo. Fidel está em fase terminal de uma grave doença e, na semana passada, anunciou que não mais concorreria à eleição indireta que escolhe o presidente e o comandante-em-chefe das Forças Armadas.

Seus apaniguados viram o gesto como prova de desprendimento do comandante e evidência de modéstia e renúncia pessoal em benefício da pátria. Tudo encenação. Nem que quisesse, a saúde debilitada e a velhice lhe permitiriam candidatar-se a algo mais do que uma vaga no jazigo dos heróis na Praça da Revolução. Diante de uma impossibilidade finge que está por cima. Vintage Fidel. Clássico Fidel. Vai anunciar o corte da cota de leite para a população adulta de Havana? Diga à multidão que não faltará leite para as crianças. Vai ter de recuar, desmontar os mísseis atômicos soviéticos e devolvê-los a Moscou? Diga que Cuba é soberana e pode ter as armas que quiser: "Os mísseis se vão. Mas ficam todas as demais armas" – como se isso fosse algum consolo. Mas as massas vão acreditar. Foi pego exportando terroristas para insuflar a subversão em outros países? Diga que, se quisesse mesmo fazer terrorismo, Cuba produziria "excelentes terroristas, e não esses incompetentes que foram presos". Está difícil explicar a miséria franciscana da economia cubana? Diga que quem está mal são os Estados Unidos ("os ianques estão falidos"), o Japão ("tenho pena dos japoneses") e a Europa ("o velho continente está esgotado"). Está prestes a morrer, não consegue caminhar nem discursar? Diga que vai apenas mudar de posto, mas que o combate continua.


Reuters
DAVI E GOLIAS
Enquanto Fidel reinou, os Estados Unidos tiveram dez presidentes. O clima de confronto com o vizinho poderoso fortaleceu o poder do ditador, que pode posar de Davi na luta contra Golias. Fidel em piscina em visita à Romênia, em 1972, e, abaixo, americanos assistem a discurso de Kennedy durante a crise dos mísseis, em 1962
Time & Life Pictures/Getty Images

Todo político tem de ser bom mentiroso. Para ser Fidel é preciso, no entanto, ser um grande farsante. Ele é um dos maiores que a história conheceu. É presidente de uma nação paupérrima, mas vive como um cônsul romano que come lagostas quase todos os dias? Negue: "Temos as lagostas mais doces do Caribe, mas não as comemos. Trocamos por leite para as crianças". Vive cercado de um aparato de segurança que parece um bunker ambulante? Invente que é um homem simples que às vezes anda só pelas ruas, como um filósofo peripatético absorto em uma paisagem idílica: "Outro dia, no México, ia só pela rua, só como uma pomba...".

Desde os primeiros momentos da revolução que o levou ao poder, em janeiro de 1959, Fidel mostrou a utilidade política de um grande fingidor. Quando começaram os julgamentos sumários com o objetivo de criar um clima de terror e matar os inimigos, e até alguns amigos políticos, Fidel não aparecia como carrasco (esse era o papel do argentino Che Guevara) nem como juiz. Fingia não se envolver. Em uma aparição famosa, ele vai ao tribunal do júri e faz um discurso mercurial: "Que esta revolução escape da maldição de Saturno. E que é a maldição de Saturno? É o dito clássico, o refrão clássico de que, como Saturno, as revoluções devoram seus próprios filhos. Senhoras e senhores deste tribunal, que esta revolução não devore seus próprios filhos". Lindo? Sim, mas era uma farsa. Naquele mesmo dia, dois jovens combatentes comunistas urbanos que não lutaram na guerrilha rural de Castro foram condenados à morte. A revolução devorava alguns de seus próprios filhos. Mas o que ficou? O discurso inflamado com referências eruditas. Funciona sempre? Não. Funciona em Cuba, que tem Fidel e algumas outras características que ajudam esse tipo de farsa a passar por verdade. Ajuda muito banir a imprensa, dominar a televisão e o rádio, proibir a entrada de jornais estrangeiros no país e impedir os cidadãos de viajar para o estrangeiro. Ajuda enjaular por tempo indeterminado, e sem juízo formado, toda a oposição. Ajuda muito abolir as liberdades individuais e ser o ditador de uma ilha, um país-cárcere. Eis a grande obra de Fidel Castro em meio século de governo. A história o absolverá? Difícil.


Divulgação
A OPORTUNIDADE
Resort da rede Meliá na ilha de Cayo Guillermo, em Cuba, proibido para cubanos: o crescimento da indústria do turismo, que recebe 2 milhões de visitantes por ano, é mérito de Raúl, que colocou militares aposentados para administrar o setor

Cuba tem um presidente, mas não uma Presidência. Fidel Castro é a revolução. Lealdade ao estado cubano é a lealdade a Fidel. Naturalmente, à medida que se aproxima o dia de seu desaparecimento, a questão da sucessão provoca tremenda incerteza e instabilidade potencial. Sobretudo porque em ditaduras personalistas a sucessão para valer geralmente só pode ocorrer depois da morte do grande cacique, mesmo que ele tenha passado muito tempo incapacitado de governar. A lenta agonia de Mao Tsé-tung e de Leonid Brej-nev congelou a China e a União Soviética por anos. O mesmo ocorre com Fidel. Em julho de 2006, sabendo-se entre a vida e a morte, ele foi forçado a delegar ao irmão, Raúl, o título de presidente em caráter provisório. O anúncio de que não mais voltará ao cargo ocorreu seis dias antes de a Assembléia Nacional aprovar o novo Conselho de Estado e seu presidente (o mais graduado título de Fidel desde que o Conselho foi estabelecido, em 1976). É quase certo que Raúl será confirmado no cargo. Mas os camaradas podem optar por um homem mais jovem, o vice-presidente Carlos Lage, 56 anos, de forma a evitar a necessidade de nova sucessão em curto prazo, já que Raúl está com 76 anos. É bem possível que Lage se torne, por enquanto, o número 2 de Cuba, o lugar até agora ocupado pelo primeiro-irmão. Toda a movimentação, no final das contas, faz parte do jogo de paciência. Enquanto estiver neste mundo, Fidel continuará a ser a voz forte nas decisões estratégicas.


AFP
O DESESPERO
Cubanos fogem para os Estados Unidos em um caminhão da década de 50 transformado em balsa, em 2003: 78 000 pessoas morreram na tentativa da travessia

O que será de Cuba depois que Fidel for se encontrar com Marx no céu dos comunistas? O regime cubano, da forma como nós o conhecemos, não pode sobreviver a seu criador. No dia seguinte ao funeral do "comandante-en-jefe", tudo parecerá no mesmo lugar – o Partido Comunista, a polícia política, os ministérios, a camarilha dirigente –, mas essa estrutura terá a consistência de um painel cenográfico. Fidel Castro liderou uma revolução cara à imaginação da esquerda latino-americana. Sobreviveu à inimizade dos Estados Unidos, lutou na linha de frente da Guerra Fria e, seu feito mais notável, sobreviveu ao colapso do patrono soviético. No curso dessa carreira, ele pegou uma ilha caribenha, cujo destino natural era a irrelevância, e a colocou no centro das preocupações internacionais. Não há ninguém com o currículo e o talento necessários para ocupar o posto de comandante-em-chefe e ser levado a sério pela população da ilha. Dois terços dos 11 milhões de cubanos nasceram depois de 1959 e não conheceram outro líder exceto Fidel. "Nos livros escolares, Fidel é enaltecido como o grande pai, aquele que trabalha dia e noite para proteger os cubanos", disse a VEJA o historiador argentino Carlos Malamud, do Instituto Real Elcano, em Madri.

Raúl ganha o cargo, mas falta-lhe o carisma necessário para ocupar o papel de pai da pátria que seu irmão encarna. A ilha foi submetida a um processo traumático por meio século. Fidel derrubou um sargento ignorante e corrupto, detestado pelos cubanos e desprezado pelo mundo. Não fez isso apenas com seu grupo de guerrilheiros barbudos em Sierra Maestra. A revolução cubana foi produto da vontade de uma frente ampla de estudantes, partidos políticos, organizações profissionais e contou com o entusiasmo da população cubana. O objetivo capaz de aglutinar toda essa gente era a restauração da constituição democrática de 1940, rasgada pelo ditador Fulgencio Batista. Fidel traiu todos eles. No fim de 1959, já tinha iniciado a repressão política. Dois anos depois, aproveitou-se das rivalidades da Guerra Fria para instalar o comunismo e se tornar cliente da União Soviética. Fuzilou antigos aliados, destroçou famílias e arruinou as esperanças de duas gerações de cubanos.

Quem pôde fugiu. Há 2 milhões de exilados – um em cada seis cubanos vive no exterior, uma proporção de exilados maior que a existente no Afeganistão, país devastado por trinta anos de guerra civil. O governo de Fidel Castro é agente do maior fracasso material da história das ditaduras latino-americanas. O comunismo foi formalmente estabelecido em abril de 1961. A economia planificada foi um desastre imediato. O racionamento de alimentos, que ainda persiste, começou no ano seguinte. O salário médio de um trabalhador cubano equivale a 10 dólares. A produtividade dos canaviais de Cuba, que já foi o maior produtor mundial, hoje é de 27.800 quilos por hectare, um índice baixíssimo. No Brasil, é de 73 900 quilos.

Cuba não teria sido o que foi nos últimos 49 anos se não fosse Fidel e, pelo mesmo motivo, está fadada a mudar com ele fora do poder. Não é fácil, pois a receita do desastre econômico está no coração do sistema político. Fidel jamais pretendeu estabelecer uma economia socialista com padrão mínimo de racionalidade e produtividade, como tentaram os comunistas do Leste Europeu – ou como os chineses e os vietnamitas estão fazendo agora. Mercado e instituições são anátemas em sua ideologia. Em lugar disso, o comandante-em-chefe apostava na mobilização em massa a pretexto de defender a pátria e no esforço incondicional daqueles que lhe eram fiéis. O próprio Partido Comunista foi, durante bastante tempo, mero coadjuvante. Há mais de dez anos não realiza um congresso. Ele sempre se recusou totalmente a implantar as políticas macroeconômicas necessárias para aumentar o PIB e a produtividade, criar empregos, salários reais e, até mesmo, aumentar a arrecadação de imposto. Incapaz de produzir riqueza, Fidel só podia oferecer aos cubanos uma divisão mais ou menos equitativa da pobreza. Por muito tempo conseguiu convencê-los de que isso era uma virtude socialista.

AFP
NOVO PATROCÍNIO
O presidente Hugo Chávez, ao lado de Raúl Castro, entrega um quadro de presente a Fidel, em visita ao ditador doente em agosto de 2006: o venezuelano ajuda Cuba com petróleo subsidiado em troca de médicos e professores cubanos que trabalham na Venezuela. Raúl não vê com bons olhos a influência de Chávez sobre Cuba, mas não tem muita opção

Não é de surpreender que essa situação tenha dado origem a um mundo bipolar, o da dupla moralidade. Em público, os cubanos apóiam o comandante-em-chefe e o regime e defendem objetivos socialistas. Em particular, engajam-se em atividades ilegais, compram e vendem no mercado negro e planejam deixar o país. O fenômeno foi reconhecido pelo Partido Comunista na década de 90, mas este não conseguiu eliminá-lo ou não se esforçou para isso. Alegres apesar das agruras de um país aos pedaços, os cubanos são uma fonte inesgotável de piadas sobre as mazelas do regime. Um exemplo: na escola, perguntam ao menino quais são as três grandes conquistas da revolução. Ele responde prontamente que são a educação, a saúde e a seguridade social. Provocativa, a professora quer saber quais são os três defeitos. O aluno também os tem na ponta da língua: café-da-manhã, almoço e jantar. Visto de uma perspectiva egoística, o modo de governar adotado por Fidel foi um sucesso para ele próprio. Nenhum outro ditador de sua época permaneceu tanto tempo no poder. Ele sobreviveu à hostilidade de dez presidentes americanos. "Sem Fidel Castro, o regime cubano teria acabado junto com a União Soviética, quase vinte anos atrás", disse a VEJA a socióloga cubana Marifeli Pérez-Stable, vice-presidente do Diálogo Interamericano, um centro de análises políticas em Washington. Por outro lado, o estilo castrista é um problema para seus sucessores. Ninguém pode governar como Fidel governou, e não há acordo entre os camaradas sobre o melhor caminho a adotar.

Ela não vê perspectiva de democracia em Cuba em futuro próximo e também não está certa de que condições favoráveis à transição possam emergir a curto prazo. Na sua opinião, há quatro cenários possíveis para o futuro de Cuba.

• O primeiro é o desejado por Raúl Castro e muitos camaradas do Partido Comunista. Sem a presença de Fidel, seus membros poderiam enfim colocar em prática as reformas econômicas, copiando algumas medidas favoráveis ao mercado adotadas na China ou no Vietnã e mantendo intacta a estrutura política. Apesar de o partido conservar o monopólio do poder, haveria bastante liberdade econômica. Se der tudo certo, café-da-manhã, almoço e jantar deixarão de ser um problema para os cubanos.

• O segundo cenário é o almejado pelos cubanos exilados nos Estados Unidos. Com a saída de Fidel e uma ligeira abertura econômica, seu sucessor daria início à transição democrática. Novos nomes de dentro do regime e da sociedade civil ganhariam projeção política e começariam a pressionar o governo e a população não se daria por satisfeita apenas com a melhoria da qualidade de vida. Os sucessores de Fidel decidem não recorrer à repressão em massa, o que abre caminho para o estabelecimento da democracia a médio prazo.

• Uma terceira possibilidade seria que as reformas econômicas levadas a cabo pelos sucessores de Fidel se revelem lentas em produzir resultados. A população perde a paciência e protestos explodem nas cidades. A linha-dura propõe usar a força, mas os reformistas preferem negociar. Convocam um diálogo nacional e a transição para a democracia ocorre em ritmo acelerado.

• O último cenário é o mais caótico. O sucessor de Fidel é cauteloso desde o início, com medo de perder o controle. Não há abertura política ou econômica. Protestos populares espalham-se pela ilha. O Exército é chamado, cubanos fogem em massa para a Flórida. Uma intervenção americana ou de forças de paz da ONU não estaria fora de cogitação.

Depois de perder a mesada soviética, a economia cubana encolheu 35% entre 1989 e 1993. Muita gente esperou que Fidel fosse engolido pela queda do Muro de Berlim. Ele respondeu declarando um "período especial", com medidas austeras e reformas tímidas, mas pragmáticas. Sob o comando de Raúl e Lages, foram permitidas a abertura de restaurantes familiares, feiras livres para complementar a escassa ração oficial e a circulação de dólares. Também foram encorajados o turismo e os investimentos estrangeiros, principalmente em hotéis, minas de níquel e exploração de petróleo. O resultado foi que algumas pessoas melhoraram de vida. Fidel viu nisso uma afronta ao sacrossanto princípio da igualdade revolucionário. Em 1996, ele deu marcha a ré nas reformas. O investimento estrangeiro tornou-se mais seletivo. A repressão política intensificou-se e culminou com a prisão de 75 dissidentes em 2003, na maioria condenados a longas penas de prisão.

Hugo Chávez substituiu a União Soviética como provedor. Ele manda 92.000 barris diários a preços subsidiados para Cuba. Nos últimos dois anos, ajudou com 2,3 bilhões de dólares. Graças a Chávez, os cortes de energia elétrica tornaram-se raros. A China também ofereceu crédito farto. No momento, Cuba está trocando sua frota de ônibus e caminhões por veículos pesados. Para completar, o preço internacional do níquel subiu. Nada disso teve reflexo significativo no bolso dos cubanos. O salário médio é de 265 pesos, o equivalente a 10 dólares. Um médico pode ganhar 700 pesos. É o suficiente para comprar uma dúzia de frangos – se é que alguém viveria apenas de comer frangos. Raúl não é um reformista nem um democrata. É comunista desde a adolescência. Mas, ao contrário de Fidel, não tem uma visão ideológica dos problemas sociais. Pragmático, percebeu que o regime não sobrevive sem reformas econômicas e vê com admiração o sucesso da experiência chinesa. Desde 1959 ele dirige as Forças Armadas, instituição que, dentro do caos geral de que padece o país, funciona razoavelmente bem. O Exército transformou-se no pioneiro do capitalismo cubano, investindo na agricultura, no turismo e na indústria. Raúl cuida pessoalmente do turismo. Com 300 praias de areia branca e mar transparente, a ilha atrai 2 milhões de turistas por ano. Se o irmão morrer, ele estará livre para tentar um comunismo à chinesa no Caribe.

O desafio de suceder a Fidel é grande. O regime perdeu a lealdade dos jovens. Num encontro recente, transmitido pela televisão, dois jovens universitários colocaram Ricardo Alarcón, o presidente da Assembléia Nacional, numa saia-justíssima. Eles fizeram isso com umas poucas perguntas básicas:

• Por que os cubanos não podem viajar para fora do país?

• Por que os produtos de consumo são cobrados em pesos conversíveis, que têm seu valor atrelado ao dólar, se os trabalhadores cubanos recebem em pesos normais, que não valem quase nada?

• Por que os cubanos não podem freqüentar os hotéis e os restaurantes abertos só para turistas?

• Que sentido faz realizar eleições para a Assembléia Nacional se os eleitores desconhecem totalmente quem são os candidatos?

É compreensível que Alarcón não tenha conseguido articular respostas inteligíveis. A verdadeira resposta veio dias depois. Os jovens foram forçados a se retratar diante das câmeras da televisão oficial.

Nesse quadro tormentoso, surpreende como ainda se repete que "é preciso preservar as conquistas da revolução". O mito propagandista sugere que Fidel tomou o poder em Uganda e agora o está devolvendo na Suíça. Na verdade, os indicadores sociais cubanos pré-Fidel eram excelentes nos quesitos educação e saúde. A contribuição castrista consiste sobretudo na destruição da infra-estrutura física e humana da ilha, que já foi rica em escritores, artistas e músicos e hoje é um deserto de idéias. O motivo da tolerância existente em relação a Cuba é de difícil explicação. O ensaísta argentino Mariano Grondona atribui esse fascínio pelo ditador caribenho ao realismo fantástico que domina não apenas na literatura, mas também no campo minado da política latino-americana. Esse pensamento se traduz basicamente pela crença de que nossos fracassos não são produto de nossos erros, mas uma conseqüência de algo maior, a opressão americana. Seria a utopia cubana como uma terra a salvo dos americanos que entusiasma políticos e intelectuais que, em sua própria terra, fazem questão de viver num regime democrático.


Gregorio Marrero/AP
Adalberto Roque/AFP
O NÚMERO 2
Entre os políticos cotados para assumir o poder, Carlos Lage é a segunda opção,depois de Raúl. À direita, o chanceler Felipe Perez Roque, um comunista ortodoxo

Os índices sociais de Cuba são razoáveis para uma ilha do Caribe. O país não reproduz os altos índices de criminalidade da vizinha Jamaica ou a pobreza abjeta do Haiti. Sem Fidel talvez o país fosse socialmente mais desigual. Mas implantar uma realidade de zoológico – ou seja, aquela em que todos têm comida, escola e saúde, mas vive enjaulado – não paga o preço do atraso, da falta de liberdade e da pequenez intelectual. Sobretudo por ser falsa a existência de uma dicotomia entre democracia e justiça social. A Costa Rica desfruta uma posição melhor que a de Cuba no IDH, sem ter para isso abolido as eleições livres, prendido opositores ou impedido seus cidadãos de viajar para o exterior. Entre os mitos mais divulgados por Havana está o de que a pobreza cubana é uma conseqüência direta do embargo comercial decretado pelos Estados Unidos nos anos 60. Trata-se de uma balela, visto que o restante do mundo está ávido por negociar com Cuba. O próprio embargo não é tão fechado quanto parece. Os cubanos compram 500 milhões de dólares em alimentos e remédios americanos. Outro 1 bilhão de dólares, uma das três maiores fontes de renda da ilha, é enviado pelos cubanos que vivem nos Estados Unidos a seus parentes em Cuba.

Muitos políticos americanos acreditam que o embargo é contraproducente e fornece uma desculpa para o fracasso econômico e social de Fidel Castro. Melhor seria revogá-lo e afogar o regime comunista num banho de dólares. Não é má idéia. Mas há razões para tanta hostilidade. O embargo foi uma resposta direta ao confisco de propriedades americanas no valor de 2 bilhões de dólares no início da revolução. Além do mais, é bom lembrar, num momento de absoluto fanatismo, Fidel tentou deflagrar a III Guerra Mundial. Em 1962, ele conseguiu que Nikita Kruchev instalasse mísseis nucleares em Cuba. Nos treze dias febris que se seguiram, a humanidade esteve perto da aniquilação. Por fim, Moscou aceitou retirar o armamento em troca da promessa de que a ilha não seria invadida. Sabe-se que Fidel tentou empurrar a União Soviética a levar o confronto até o limite do inimaginável. Assustados com a gravidade do que tinham vivido, John Kennedy e Kruchev deram início ao processo de coexistência pacífica entre as superpotências. Vamos ver a figura por este ângulo: Fidel Castro é um sobrevivente daqueles tempos tenebrosos. Já vai tarde.


"O castrismo acabou"

Enrique de La Osa/Reuters
Palacios em Havana, um mês antes de partir para Madri: tortura


O dissidente cubano Héctor Palacios Ruiz considera o afastamento de Fidel Castro um alívio para a população, mas duvida que seu substituto consiga manter-se no poder, exceto pela força. "De toda forma, qualquer um é melhor que Fidel", diz o sociólogo de 64 anos. Preso em 2003 e condenado a 25 anos de cadeia por sua atividade oposicionista, ele foi solto no fim de 2006, em caráter condicional, para tratar da saúde. De Madri, onde está cuidando das doenças adquiridas na cadeia, Palacios concedeu ao repórter Thomaz Favaro a seguinte entrevista.

Raúl Castro pode ser melhor para Cuba que seu irmão, Fidel?
Qualquer um é melhor neste momento. Fidel Castro é um homem apegado ao poder, obstinado em evitar mudanças substanciais em Cuba. A falta de mudanças é o que de pior pode acontecer, pois os problemas econômicos e sociais do país são gravíssimos. Não creio, contudo, que Raúl consiga ser o dirigente de Cuba. Ele não tem força política suficiente nem o carisma necessário para isso. Raúl pode tentar governar pela força, apontando a pistola para a população cubana, mas por pouco tempo. O próprio Raúl já disse que Fidel é insubstituível.

Por que Fidel é insubstituível?
Fidel Castro é um político inteligente e muito hábil. Ele sempre teve todo o poder nas mãos e concentrou pessoalmente todos os cargos importantes: comandante-em-chefe, primeiro-secretário do Partido Comunista, chefe do Conselho de Ministros e presidente do Conselho de Estado. Fidel também conseguiu estabelecer uma aliança internacional com a esquerda e chegou a ser visto como o Homem do Século XX. Ele é um ícone da história. Não se pode esquecer que seu rosto e sua vontade foram onipotentes em Cuba durante as cinco décadas em que reinou. Acredito que tudo isso desaparecerá rapidamente. Note que ninguém chorou a saída de Fidel. Isso mostra como as pessoas estão cansadas do regime castrista. O castrismo desaparecerá da mesma forma que o stalinismo e o hitlerismo, movimentos que viraram fumaça depois da morte de seus criadores.

O que falta para que comecem as transformações políticas em Cuba?
As mudanças não começam nas estruturas políticas, e, sim, na população. Quando o povo está insatisfeito, pede mudanças. As transformações começam quando as pessoas percebem que o governo não tem como resolver os problemas. Isso já teve início em Cuba, mas se trata de um processo lento. Com a saída de Fidel da cena política, desaparecerão também muitos dos seus dogmas. O que temos em Cuba não é sequer socialismo ou comunismo. O regime cubano não encontra respaldo nem na teoria nem na prática comunistas. É um castrismo, terror semeado nas crianças desde que nascem para que não reajam. Fidel não deixa sucessor. Nem mesmo no Partido Comunista, que não passa de um grupo de políticos de carteirinha, mas sem ideologia. Imagine, em dez anos, como seria um Congresso cubano com essas pessoas. Não digo que será amanhã, mas falta pouco para a transição.

O sistema político atual pode sobreviver sem Fidel Castro?
A saída de Fidel nos traz um otimismo cauteloso, mas ainda restam muitas dúvidas sobre o futuro. Primeiro porque sabemos como ele atua. Enquanto tiver um sopro de vida, poucas decisões importantes poderão ser tomadas sem sua participação. Ele não renunciou ao cargo de primeiro-secretário do Partido Comunista, e na Constituição cubana está escrito que o partido é o reitor da sociedade. Portanto, Fidel continua no comando do país. Em segundo lugar, ele já demonstrou que não está disposto a tolerar mudanças no governo. E tem suficiente influência para isso.

O senhor acha que sua liberação foi um sinal de mudanças na ilha?
Eu não fui solto. Ainda sou um preso político. Estou na Espanha com licença médica para tratar das graves doenças que adquiri no cárcere. Devo 21 anos de prisão ao governo cubano. Na hora em que eles quiserem devo voltar ao cárcere, sem julgamento nem recursos. Há 250 presos políticos em Cuba, todos inocentes. Nenhuma lei diz que um homem deve ser preso pelo que pensa. A minha história é a de quase todos os opositores. Eu era um agricultor da Serra de Escambray, no centro de Cuba. Foi ali que ouvi falar de revolução pela primeira vez. Participei da guerrilha, pois estava interessado em tudo o que oferecia Fidel Castro. Depois fui me dando conta de que ele me enganava. Não tenho vergonha de ter combatido na revolução. Lutei para implantar a democracia, o que faço até hoje.

Quais são os problemas de saúde que o senhor enfrenta?
Tive um colapso do sistema circulatório da cintura para baixo, fruto de dois anos vivendo em celas "tapeadas", como são chamadas. São cubículos muito baixos, fechados com placas de aço. Sem luz nem ventilação, o interior da cela atinge temperaturas entre 45 e 55 graus. As condições de higiene são terríveis. Isso afetou também meu sistema respiratório. Hoje tenho metade da capacidade respiratória normal. Devido a todos esses fatores, minha pressão arterial é altíssima. Recentemente sofri um ataque isquêmico transitório, por falta de oxigenação no cérebro, e caí. Dito isso, espero que você não me pergunte se há tortura em Cuba. Meu caso serve como resposta. Liberaram-me para morrer.

Por que os Estados Unidos insistem em manter o embargo a Cuba?
O governo americano cometeu efetivamente muitos erros. A invasão da Baía dos Porcos, em 1961, foi um dos piores. Outro engano incalculável foi ter cortado a cota açucareira de Cuba em 1960, pois isso permitiu a aproximação da União Soviética. Tudo isso ajudou Fidel Castro. O embargo econômico a Cuba não é significativo, pois os Estados Unidos são um dos maiores parceiros comerciais da ilha. Cuba importa dos americanos quase 500 milhões de dólares por ano. As compras incluem produtos agrícolas, subsidiados, que são revendidos por um preço muito mais alto no país. Os Estados Unidos são um grande negócio para Cuba, mas na cabeça das pessoas persiste a idéia de que há um boicote. Ou seja, o embargo americano só dá mais força a Fidel. O verdadeiro embargo é o do governo ao povo cubano. Quem pode imaginar que neste século, na América, onde todos já lutaram pela democracia, possa ainda existir um sistema de partido único?

Com reportagem de Alexandre Salvador,
Duda Teixeira, Thomaz Favaro e Vanessa Vieira